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Vinicius

Vinicius de MoraesVinicius de Moraes me abriu as portas da poesia e, assim sendo, tive acesso ao infinito. Para viver um grande amor e Para uma menina com uma flor tiveram suas páginas lidas e relidas, em desordem é claro, porque a gente não lê Vinicius como se lê um romance, a gente lê como se estivesse mergulhando em mar profundo: entre um mergulho e outro, é preciso voltar à superfície, pra saber que o mundo ainda está lá. Lendo e sentindo Vinicius, lá nas profundezas azuis, entre corais e estrelas deitadas na areia, a gente vira concha grávida.

 

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.

O início do recanto do Vinicius, com alguns versos que mais me encanta(ra)m... Chico Joy é o artista, autor da figura e dos livros-suporte para os versos de Vinicius.

CANTO TRISTE (musicada por Edu Lobo)

Porque sempre foste
A primavera em minha vida
Volta para mim
Desponta novamente no meu canto
Eu te amo tanto mais
Te quero tanto mais
Ah, tanto tempo faz partiste
Como a primavera
Que também te viu partir
Sem um adeus sequer
E nada existe mais em minha vida
Como um carinho teu
Como um silêncio teu
Lembra um sorriso teu
Tão triste

A Lua sem compaixão
Sempre a vagar no céu
Onde se esconde a minha bem-amada
Onde a minha namorada
Vai e diz a ela as minhas penas
E que eu peço,
Peço apenas que ela lembre
As nossas horas de poesia
As noites de paixão
E diz-lhe da saudade
Em que me viste
Que estou sozinho
Que só existe
Meu canto triste
Na solidão

Lírio do Cantinho do Vinicius, no Jardim dos Poetas

MINHA NAMORADA (musicada por Carlos Lyra)

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada
Pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois

TERNURA

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade
O olhar extático da aurora.

Cantinho do Vinícius (ainda sem as tabuletas com os versos), no Jardim dos Poetas em Nova Friburgo

 


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